Jorge
Amado (1912 - 2001)
DADOS BIOGRÁFICOS
Jorge Amado de Faria nasceu
em 1912, em Ferradas, hoje município de Itabuna, Bahia. Filho de comerciante
sergipano que se tornou produtor de cacau, fez seus estudos em Ilhéus, Salvador
e Rio. Nos fins da década de 20, levou vida de jornalista boêmio, na capital
baiana, onde participou de grupos literários e da efêmera "Academia dos
Rebeldes", uma das primeiras manifestações de oposição ao Modernismo, no
nordeste. Em 30, foi para o Rio estudar Direito. Nessa cidade, colaborou em
jornais, fez parte de grupos literários e publicou, em 1931, O País do
Carnaval, o que o tornou conhecido.
A notoriedade chegou com os
dois romances seguintes: Cacau e Suor, publicados em 33 e 34. Em 1932,
aproximou-se dos grupos políticos de esquerda, apresentado por Rachel de
Queiroz. Participou do movimento de frente popular da Aliança Nacional
Libertadora, conhecendo as agruras da prisão, em 36 e 37. Perseguido, exilou-se
em Buenos Aires, Argentina, de 1941 a 1943, período em que publicou a biografia
de Carlos Prestes e escreveu Terras do Sem Fim.
Em 1946, com a
redemocratização, elegeu-se deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro.
No ano seguinte, perdeu o mandato, quando o partido foi considerado ilegal. Em
1947, deixou o país por alguns anos, morando na França e em vários países
socialistas da Europa. A partir de 1958, sua produção metódica tem-lhe
permitido viver exclusivamente de literatura. Em 1959, foi eleito para a
Academia Brasileira de Letras. É, sem dúvida, o autor mais popular da
literatura brasileira; seus livros foram traduzidos para mais de 30 línguas,
sendo por isso conhecido mundialmente.
CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS
Jorge Amado, em largos
painéis coloridos, retrata o regionalismo nordestino, mostrando a desgraça e a
opressão do negro, do pobre e do trabalhador, nas zonas cacaueiras e urbanas da
Bahia. Através desses tipos marginalizados, apresentados com humanidade,
simpatia calorosa e um vivo senso do pitoresco, analisa toda uma sociedade.
Um grande expoente do
Modernisno, sua maturidade literária se revela na capacidade de mesclar
realismo e romantismo, lirismo poético e documento em sua narrativa, cuja
linguagem explicita o falar de um povo e cuja ideologia se sobrepõe na forma de
uma necessidade premente de justiça social. O caráter político e revolucionário
das obras iniciais não se encontra nos romances pós década de 50, o que tem
feito críticos dividirem sua obra em diferentes temáticas. O Romance Proletário
que retrata a vida rural e citadina de Salvador, com forte apelo social.
Incluem-se nesse tipo: Suor, O País do Carnaval e Capitães da Areia [ver
Antologia]. O "Ciclo do Cacau" tem como temas os latifúndios da
região cacaueira e as lutas que, em tom épico, retratam a ganância dos
coronéis, a exploração do trabalhador rural. Pertencem a esse ciclo: Cacau,
Terras do Sem Fim [ver Antologia] e São Jorge dos Ilhéus.
A Pregação Partidária é
constituído por um grupo de escritos de cunho político: O Cavaleiro da
Esperança e O Mundo da Paz.
A última fase se compõe de
Depoimentos Líricos e Crônicas de Costumes e se inicia com Jubiabá [ver
Antologia] e Mar Morto, cujos temas giram em torno das rixas e amores
marinheiro. Consolidam-se com Gabriela, Cravo e Canela [ver Antologia] que,
mesmo tendo Ilhéus e problemas políticos, como pano de fundo, tende mais para
crônica amaneirada de costumes. Para Bosi, a ideologia que permeia as obras de
30 e 40 foi abandonada. A partir daí, tudo se dissolveu "no pitoresco, no
saboroso, no apimentado do regional".
PRINCIPAIS OBRAS
Romance
O País do Carnaval (1931);
Cacau (1933); Suor (1934); Jubiabá (1935); Mar Morto (1936); Capitães da Areia
(1937); Terras do Sem Fim (1943); São Jorge do Ilhéus (1944); Seara Vermelha
(1946); Os Subterrâneos da Liberdade (1954); Gabriela Cravo e Canela (1958); Os
Pastores da Noite (1964); "As Mortes e o Triunfo de Rosalinda" in Os
Dez Mandamentos (1965); Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966); Tenda dos
Milagres (1970); Teresa Batista Cansada de Guerra (1972); Tieta do Agreste
(1977); Farda, Fardão e Camisola (1979); O menino Grapiúna (1982); Tocaia
Grande -A Face Obscura (1984); O Sumiço da Santa (1988); A Descoberta da América
pelo Turcos (1994).
Novela
Os Velhos Marinheiros: A
Morte e a Morte de Quincas Berro D'água A Completa Verdade Sobre as Discutidas
Aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão-de-Longo-Curso (1961);
O Compadre de Ogun (1995).
Teatro
O Amor de Castro Alves
(1947) reeditado como O Amor do Soldado.
Poesia
A Estrada do Mar (1938).
Outras
ABC de Castro Alves (1941);
O Cavaleiro da Esperança (1942); O Mundo da Paz (1951); O Gato Malhado e
Andorinha Sinhá (1976); O Milagre dos Pássaros (1997).
Guia
Bahia de Todos os Santos
(1945) (guia da cidade de Salvador).
CAPITÃES
DA AREIA
Jorge
Amado
Tendo como cenário as ruas e
as areias das praias de Salvador, Capitães da Areia trata da vida de crianças
sem família que viviam em um velho armazém abandonado no cais do porto. Os
motivos que as uniram eram os mais variados: ficaram órfãs, foram abandonadas,
ou fugiram dos abusos e maus tratos recebidos em casa.
Aproximadamente quarenta
meninos de todas as cores, entre nove e dezesseis anos, dormiam nas ruínas do
velho trapiche. Tinham como líder Pedro Bala, rapaz de quinze anos, loiro, com
uma cicatriz no rosto. Generoso e valente, há dez anos vagabundeava pelas ruas
de Salvador, conhecendo cada palmo da cidade.
Durante o dia, maltrapilhos,
sujos e esfomeados, mostravam-se para a sociedade, perambulando pelas ruas,
fumando pontas de cigarro, mendigando comida ou praticando pequenos furtos para
poder comer. Esse contato precoce com a dura realidade da vida adulta fazia com
que se tornassem agressivos e desbocados.
Além desses pequenos
expedientes, os Capitães da Areia praticavam roubos maiores, o que os tornou
conhecidos, temidos e procurados pela polícia, que estava em busca do
esconderijo e do chefe dos capitães. Esses meninos se pegos, seriam enviados
para o Reformatório de Menores, visto pela sociedade como um estabelecimento
modelar para a criança em processo de regeneração, com trabalho, comida ótima e
direito a lazer. No entanto, esta não era a opinião dos menores infratores.
Sabendo que lá estariam sujeitos a todos os tipos de castigo, preferiam as
agruras das ruas e da areia à essa falsa instituição.
No bando, além de Pedro
Bala, destacavam-se outros meninos. Sem-Pernas, espécie de espião, falava e ria
alto. Apesar de revoltado pela falta de um lar, era rudemente bondoso. Era
coxo, causando pena nas pessoas que logo o abrigavam em casa. Após alguns dias
no bem bom da casa bacana, conhecia os hábitos e os lugares das coisas mais
valiosas, passando a informação aos amigos que fariam o serviço.
João Grande, negro de treze
anos, era forte e o mais alto de todos. Tinha pouca inteligência, mas era
temido e bondoso. José, o Professor, único que lia corretamente, tinha ido à
escola apenas um ano e meio. Era míope e gostava de contar histórias. Sua
imaginação solta criou os melhores planos de roubo. Pirulito, excessivamente
místico e introvertido, era magro e muito alto. Tinha a cara seca, meio
amarelada e olhos fundos. Sua boca rasgada ria pouco.
Gato, candidato a malandro
do bando, era elegante, gostando de se vestir bem. Tinha um caso com a
prostituta, Dalva, que lhe dava dinheiro, por isso, muitas vezes, não dormia no
trapiche. Só aparecia ao amanhecer, quando saía com os outros, para as
aventuras do dia. Volta-Seca, imitador de pássaros e afilhado de Lampião, era
mulato sertanejo de alpargatas. Boa-Vida, muito preguiçoso, era o único que não
participava das atividades de roubo do grupo. Às vezes, roubava um relógio ou
uma jóia qualquer, passando-a logo para o Bala, como forma de apoio ao grupo.
Era um boa-vida, gostava de violão e de ficar fazendo nada, contemplando o mar
e os barcos.
No dia-a-dia, o bando
contava com o apoio amigo de alguns adultos. Don'aninha, mãe de santo, sempre
os socorria em caso de doença ou necessidade. Além dela, o padre José Pedro,
introduzido no grupo pelo Boa-Vida, conhecia o esconderijo dos capitães. Aos
poucos, conquistou sua confiança, indo com freqüência visitá-los, levando um
pouco de carinho e compreensão. O Pescador Querido-de-Deus e o estivador João-
de- Adão tinham a confiança dos meninos, que, por sua vez, não mediam esforços
para recompensar esse apoio.
João-de-Adão, estivador,
negro fortíssimo e antigo grevista, era igualmente temido e amado em toda a
estiva. Através dele, Pedro Bala soube de seu pai. Ele tinha conhecido o loiro
Raimundo, estivador que tinha morrido, baleado na greve, lutando em prol dos
estivadores. Segundo ele, a mãe de Pedro falecera quando ele tinha seis meses;
era uma mulher e tanto.
Um dia, Salvador foi
assolada pela epidemia de varíola. Como os pobres não tinham acesso à vacina,
muitos morriam, isolados no lazareto. Almiro, o primeiro capitão a ser
infectado, ali morreu. Já Boa-Vida teve outra sorte; saiu de lá, andando. Dora
e o irmão, Zequinha, perderam os pais durante a epidemia. Ao saber que eram
filhos de bexiguentos, o povo fechava-lhes a porta na cara. Não tendo onde
ficar, os dois acabaram no trapiche, levados por João Grande e o Professor.
A confusão, causada pela
presença de Dora no armazém, foi contornada por Pedro. Os meninos aceitaram-na
no grupo e, depois de algum tempo, vestida como um deles, participava de todas
as atividades e roubos do bando. Pedro Bala considerava Dora mais que uma irmã;
era sua noiva. Ele que não sabia o que era amor, viu-se apaixonado; o que
sentia era diferente dos encontros amorosos com as negrinhas ou prostitutas no
areal.
Quando roubavam um palacete
de um ricaço na ladeira de São Bento, foram presos. Parte do grupo conseguiu
fugir da delegacia, graças à intervenção de Bala que acabou sendo levado para o
Reformatório. Ali sofreu muito, mas conseguiu fugir. Em liberdade, preparou-se
para libertar Dora. Um mês no Reformatório feminino foi o suficiente para
acabar com a alegria e saúde da menina que, ardendo em febre, se encontrava na
enfermaria.
Após renderem a irmã, Pedro,
Professor e Volta-Seca fugiram, levando Dora consigo. Infelizmente, não
resistindo, ela morreu na manhã seguinte. Don'aninha embrulhou-a em uma toalha
de renda branca e Querido-de-Deus levou-a em seu saveiro, jogando-a em alto
mar. Pedro Bala, inconsolável e muito triste, chorou com todos a ausência de
Dora. Alguns anos se passaram e o destino de cada um do grupo foi tomando rumo.
Graças ao apoio de um poeta, o Professor foi para o Rio, e já estava expondo
seus quadros. Pirulito, que já não roubava mais, entrara para uma ordem
religiosa. Sem-Pernas morreu, quando fugia da polícia. Volta-Seca estava
fazendo o que sempre tinha sonhado; aliou-se ao bando de seu padrinho, Lampião,
tornando-se um terrível matador de polícia. Gato, perfeito gigolô e vigarista,
estava em Ilhéus, trapaceando coronéis. Boa-Vida, tocador de violão e armador
de bagunças, pouco aparecia no trapiche. João Grande embarcou como marinheiro,
num navio de carga do Lloyd.
Após o auxílio na greve dos
condutores de bonde, o bando Capitães da Areia de Pedro Bala, tornou-se uma
"brigada de choque", intervindo em comício, greves e em lutas de
classes. Assim como Pirulito, Bala havia encontrado sua vocação. Passando a
chefia do bando para Barandão, seguiu para Aracaju, onde iria organizar outra
brigada. Anos depois, Pedro Bala, conhecido organizador de greves e perigoso
inimigo da ordem estabelecida, é perseguido pela polícia de cinco estados.
GABRIELA
CRAVO E CANELA
Jorge
Amado
Na progressista Ilhéus, a
capital do cacau, vivia Nacib, sírio, naturalizado brasileiro, que aqui estava
desde os quatro anos de idade. Dono do bar Vesúvio e ilheense de coração, não
se lembrava de nada de seu país. Numa manhã, precisamente às seis horas, foi
acordado por Filomena, sua cozinheira. Meio atordoado entendeu que ela estava
indo embora; iria para junto do filho, agora casado e carente de sua presença.
Repentinamente, Nacib se viu
sem cozinheira, exatamente, um dia antes do jantar para trinta pessoas, que
seria dado no Vesúvio, em comemoração da recém-inaugurada empresa de ônibus que
fazia Ilhéus-Itabuna duas vezes por dia. Agora Ilhéus tinha um serviço de
transporte coletivo, graças ao empreendimento de dois homens corajosos - o
russo Jacob e o Moacir da garagem. Além disso, precisava de um tabuleiro de
doces e salgados para o bar.
Foi à casa das irmãs dos
Reis, Quinquina e Florzinha que, além de excelentes doceiras e quituteiras,
faziam o maior e o mais visitado presépio da cidade. Aceitaram a encomenda, por
que se tratava do senhor Nacib; estavam muito atarefadas com o presépio.
Naquela manhã, trabalhando no bar, contava sua desventura a todo freguês, na
expectativa de que este conhecesse uma cozinheira disponível. Não poderia ficar
com as dos Reis; eram muito caras. Logo após o almoço, aceitou a sugestão do
professor Josué; iria mais tarde ao "Mercado de Escravos", onde se
instalara uma leva de retirantes flagelados. Talvez, com sorte, pudesse
encontrar uma cozinheira em meio àquela gente.
Naquela manhã, muitas coisas
ocorreram em Ilhéus, fazendo a cidade fervilhar. Quando estava para atracar no
porto, o Ita encalhou na areia, ficando ali horas. Dizia-se, com veemência que
a falta de um porto decente era um despropósito para uma cidade daquele porte.
Além da costumeira leva de comerciantes e aventureiros, o navio trazia de volta
o exportador de cacau, Mundinho Falcão que tinha ido ao Rio para ver a família
e fazer contatos políticos. Era solteiro e, como a maioria das pessoas, viera
para Ilhéus em busca de fortuna. Além disso, queria tentar esquecer um grande
amor.
A notícia do assassinato de
um casal de jovens correu rápido como um relâmpago pela preconceituosa cidade.
Naquela manhã, o coronel Jesuíno flagrou sua esposa, Sinhazinha, na cama com o
dentista, Dr. Osmundo, matando-os em seguida. Comentava-se e discutia-se
calorosamente a tragédia dos dois apaixonados; divulgavam-se versões da
sociedade, opunham-se detalhes, mas com uma coisa todos concordavam: o gesto
macho do coronel era constantemente louvado. Para a provinciana Ilhéus, honra
de homem enganado, só o sangue poderia limpar. Na busca de razões, os mais
conservadores diziam que o vilão de tudo isso era o clube Progresso com seus
bailes.
Quando a tarde caiu sobre
Ilhéus e o bar começou a esvaziar, Nacib se dirigiu ao Mercado. Entre os
retirantes notou uma mulher em trapos miseráveis, pés imundos descalços e
cabelos desgrenhados. Estava tão suja que não se podia ver-lhe as feições ou
dar-lhe a idade; respondeu que se chamava Gabriela e que sabia fazer de tudo.
Mesmo achando que não era verdade, Nacib levou-a consigo, para experimentar o
seu serviço. Quando chegaram em casa, mostrou-lhe os aposentos e o quarto onde
ela ficaria. Antes de sair, mandou que tomasse um bom banho; iria ao bar e
depois acabaria a noite no Bataclan, onde estava de xodó com Risoleta.
Para surpresa de Nacib,
Gabriela revelou-se competentíssima no forno, fogão e arrumação de casa. Além
disso, era uma bela morena com lábios de pitanga; era de uma beleza simples,
pura. Logo, a moça se inteirou de tudo da casa, arrumando tempo até para levar
o almoço do patrão e ajudá-lo no bar, enquanto este almoçava. Não só os
quitutes da jovem cozinheira trouxeram mais clientes ao bar, como também sua
presença que a todos encantava. Ela, por sua vez, se encantava também com os
moços bonitos que freqüentavam o bar. Voltava para casa, quando o Sr Nacib se
acomodava na espreguiçadeira para a sesta de alguns minutos no começo da tarde.
Gabriela gostava de brincar, correr com as crianças, ficar descalça, ir ao
circo e de rir, ria sem motivo, ria sempre e muito com sua boca de pitanga e
uma flor nos cabelos.
Os Bastos comandavam o
destino político de Ilhéus há mais de vinte anos, prestigiados pelos sucessivos
governos estaduais. O velho coronel Ramiro Bastos não via com bons olhos a
liderança do rico forasteiro, Mundinho Falcão. O exportador estava presente em
quase tudo o que se fazia em Ilhéus: a instalação de filiais de bancos, empresa
de ônibus, a avenida na praia, a publicação do jornal diário, os técnicos
vindos para as podas de cacau, arquitetos para projetar os palacetes dos
coronéis. Preocupado, o coronel achava que a sombra de Mundinho estava
escapando de seu controle.
TERRAS
DO SEM FIM
Jorge
Amado
A exploração do cacau trouxe
para a região de Ilhéus, no sul da Bahia, o desenvolvimento e com este os mais
diversos tipos humanos que ali aportavam, atraídos pelas histórias de terras
férteis e dinheiro em abundância. Para todos, que chegavam, Ilhéus era a
primeira ou a última esperança.
Dentre as pessoas vindas de
longe, iludidas por essa febre, encontravam-se, no mesmo navio, o lavrador
Antônio Vítor que sonhava com uma roça de cacau só sua, o aventureiro João
Magalhães, jogador de cartas trapaceiro e falso engenheiro militar, que se via
ganhando muito dinheiro no carteado, graças ao "azar" dos velhos
coronéis milionários, e a prostituta Margot que deixara Salvador para encontrar
o amante, o advogado Dr.Virgílio que, na esperança de riqueza fácil, já se
encontrava em Ilhéus, esperando colocar seu conhecimento de leis a serviço da
ambição dos coronéis.
Após o desembarque,
encontraram em Ilhéus e vilarejos adjacentes: Ferradas e Taboca, sociedades em
formação, conturbadas pela ganância dos poderosos, onde a lei era a dos mais fortes
e corajosos, tornando-se por isso selvagens e violentas. Depararam-se com o
conflito entre dois grandes latifundiários: o Coronel Horácio e a família
Badaró que, em busca de expansão do patrimônio e força política, lutavam pela
posse das matas do Sequeiro Grande, que ficavam entre as duas propriedades.
Coronel Horácio, ex-tropeiro
e empregado de uma roça no Rio-do-Braço, enriquecera plantando cacau. Como
próspero fazendeiro, ajudara a construir a capela de Ferrada e a igreja de
Taboca, mantendo assim sua força política no local. Viúvo, casara-se novamente
com a bela e jovem Ester, que lhe deu um filho, seu orgulho. Tudo o que fazia
era em nome de um futuro brilhante para esse menino. Seu grande amor era a
esposa, mulher fina, inteligente e culta; falava o francês e adorava música.
Era feliz pelo que ela representava. Ester, no entanto, não o amava. Para ela,
a vida na fazenda era um tédio, um martírio; vivia apavorada com medo de
insetos e cobras. Isso se refletia no frio relacionamento sexual com o marido,
que tudo relevava, em nome da paixão.
Os advogados eram bem vindos
em Ilhéus, onde faziam fortunas. Os grandes latifundiários, quando queriam se
apossar de um roçado vizinho, para, gananciosamente, aumentar seu patrimônio,
solicitavam de um advogado um "caxixe", documento falso de
propriedade, que expulsava, o pequeno lavrador de seu roçado. Assim, de um dia
para outro, este se via forçado a deixar sua lavoura, conquistada, na maioria
das vezes, com muito sacrifício. Se, no entanto, punha resistência, era morto
pelos jagunços do coronel que, em "tocaia", esperavam-no passar por
uma das estradas solitárias do sertão.
Virgílio e Margot viviam em
casas separadas para evitar comentários do preconceituoso povoado de Tabocas.
Apesar disso, ele passava a maior parte do dia em companhia da amante. Pareciam
felizes. Ao contratar os serviços de Virgílio para regularizar a medição e os
documentos de posse das terras de Sequeiro Grande, o coronel Horácio convida-o
para um jantar em sua casa. Durante esse evento, Virgílio conhece Maneca
Dantas, compadre e amigo de Horácio, e Ester que, ao final, aceitara tocar
piano para eles. Fica fascinado por ela que, por sua vez, encantara-se com a
voz, a cabeleira loira, o olhar lânguido e as maneiras finas do jovem doutor. Nessa
noite, Horácio se surpreendeu com a mudança da mulher na cama; mais calorosa e
receptiva, entregava-se com paixão; achou que ela ainda o amava.
Na madrugada dessa mesma
noite, quando todos já dormiam, Firmo chegou à fazenda. Após ter acordado
todos, contou-lhes sobre o atentado que havia sofrido. O negro Damião, o melhor
matador dos Badaró, esperava-o em uma tocaia, mas felizmente errara o tiro. O
pequeno sítio de Firmo localizava-se entre a mata e a propriedade dos Badaró,
que já haviam proposto a sua compra. Ofereceram até mais do que a roça valia,
mas Firmo, aconselhado por Horácio, não a vendeu.
Para Horácio, aquela
tentativa de assassinato comprovava que eles estavam decididos entrar na mata
de qualquer jeito e que a luta pela posse de Sequeiro Grande iria começar. Pede
a Damião e Maneca Dantas para percorrerem todos os pequenos sítios que ficavam
entre as duas propriedades e explicitarem sua proposta: todos que o ajudassem,
não só manteriam suas terras como também teriam uma porção de Sequeiro Grande.
As terras na outra margem do rio, que cortava a mata, seriam divididas entre os
que o ajudassem. Além disso, como a fazenda não seria uma lugar seguro,
aconselha Ester a passar com o filho uns tempos no palacete de Ilhéus. No
caminho para Ilhéus, esperando Horácio resolver uns negócios, Ester passou
quatro dias em Tabocas, onde conversou muito com Virgílio. Cada vez mais
apaixonada, via no jovem advogado uma maneira de sair daquele lugar horrível, e
este, por sua vez, não via a hora de poder se encontrar com ela a sós.
Os Badaró eram uma das
famílias mais ricas e poderosas da região. Don'Ana, filha de Sinhô Badaró, era
conhecida em Ilhéus como moça séria e enraizada à terra; raramente deixava a
fazenda e pouco ligava para as festas da igreja e conversas de comadres.
Enquanto Sinhô Badaró era pela paz, matando somente em caso de extrema
necessidade, Juca Badaró, seu irmão, resolvia tudo a tiro e morte. Juca era
casado, sem filhos. Olga, sua esposa, passava, a maior parte do tempo, aos
cochichos em Ilhéus e ele, por sua vez, nas lavouras de cacau, ou com as
amantes. Quando ela vinha para a fazenda, era para reclamar da vida e do
marido. Don'Ana tinha pouco tempo e motivo para se condoer com ela. Como
Badaró, não era contra as aventuras extraconjugais dos homens da família.
Cumpriam com sua obrigação e não deixavam faltar nada, assim fora seu pai e
assim deveriam ser todos os homens. Para ela, Olga era uma estranha na família.
Antônio Vítor, que, no
navio, sonhava com sua volta para o Ceará, rico e bem vestido, abandonou essa
ilusão, quando notou que jagunços e lavradores deixavam todo dinheiro ganho em
contas no próprio armazém da fazenda e que, no final do mês, recebiam um saldo
miserável, quando havia saldo. Contratado para a lavoura, tornou-se capanga de
Juca Badaró, após ter-lhe salvo a vida. A sua coragem o promoveu: trocou a
foice pela espingarda; acompanhava Juca a todos os lugares. A namorada, deixada
em sua cidade, estava muito longe; não existia mais. Sonhava com Raimunda,
mulata de nariz chato, irmã de leite de Don'Ana e afilhada do Sinhô Badaró;
estava se apaixonando por ela.
Após medição da mata,
Virgílio registrou-a no cartório de Venâncio. A posse foi feita em nome de
Horácio, Maneca Dantas, Braz, viúva Merenda, Firmo, Jarde e de Dr. Jessé Freitas.
Os felizes proprietários não se regozijaram por muito tempo. Numa tarde, os
homens de Badaró atearam fogo no cartório, perdendo-se, assim, todos os
documentos.
Juca Badaró agora tinha que
medir a mata com urgência para dar entrada nos papéis de posse. Como seu
engenheiro viajara, contratou João Magalhães para executar a tarefa. Este que
não era militar e muito menos engenheiro e que, naquele fim de mundo, não
estava em busca apenas do dinheiro que lhe deixavam as mesas de pôquer, achou a
oferta de Juca irrecusável; não só fez o serviço, como também passou a se
interessar por Don'Ana. O olhar afetuoso da moça sobre ele fez com que se
colocasse à disposição dos Badaró, passando a discutir sobre as terras como um
Badaró, sentia-se um parente.
Como Virgílio estava
apaixonadíssimo por Ester, acabou brigando com Margot que, em seguida, caiu nos
braços de Juca Badaró. Este se interessou por ela, desde que a vira no navio
para Ilhéus. Nessa cidade, a força dos coronéis era medida pelas casas que
possuíam. Cada qual levantava uma melhor e, aos poucos, as famílias iam se
acostumando e demorar mais tempo na cidade do que nas fazendas. O palacete de
Horácio era maravilhoso e, ali, Ester recebia Virgílio; amavam-se e planejavam
fugas às escondidas. Apesar disso, toda cidade já comentava o caso, rindo-se do
coronel Horácio.
As emboscadas continuaram
acontecendo. Numa noite, o irmão Merenda com três cabras de Horácio, atacaram
Sinhô Badaró no atalho. Nessa mesma noite, Juca e seus homens cometeram uma
série de violências na região. Mataram os irmãos Merenda, entraram na roça de
Firmo e queimaram tudo, não o mataram porque ele não se encontrava em casa
naquele momento. Nas cidades distantes falavam-se das lutas em Sequeiro Grande.
Diariamente chegavam jagunços de outras regiões que logo eram recrutados por
alguém de um dos lados. O preço das armas e munições aumentavam; a luta exigia
muito dinheiro.
Uma noite, como Horácio
estava na cidade, Virgílio, impossibilitado de se encontrar com Ester, convidou
Maneca Dantas para saírem. No cabaré, encontrou Margot e com ela dançou uma
valsa. Quando Juca, que estava na sala de carteado, soube, entrou no salão a
tempo de impedir o bis. Ao passar por Virgílio, puxando a mulher, insultou-o.
Maneca Dantas, prudentemente, impediu-o de reagir.
Juca espalhou pela cidade
que arrancara a mulher dos braços de Virgílio e que este nada fizera; era um
cagão. Ao saber disso, Horácio explica a Virgílio que, diante daquela ofensa,
se ele quisesse continuar advogando e ser respeitado na cidade, teria de mandar
matar Juca. O coronel já decidira, iria mandar matá-lo de qualquer jeito, pois
este já tinha ido longe demais, acabando com quatro de seus homens. Apenas
queria que fosse Virgílio a dar a ordem ao jagunço. Depois de relutar muito, o
advogado concordou. Horácio ficou muito feliz; sabia então que seu amigo
entraria para o rol dos homens valentes de Ilhéus.
A emboscada armada para Juca
Badaró não foi bem sucedida. O homem na tocaia ficou morto em seu lugar e
Antônio Vítor fora ferido para salvar o patrão. Outra infelicidade assolou a
vida de Horácio; febre, que matara Sílvio, infectara-lhe também. Indiferentes
aos comentários maldosos da cidade, Ester voltou para Tabocas em companhia de
Virgílio. Ali, desdobrando-se em cuidados, ficou ao lado da cabeceira do marido
os sete dias em que esteve entre a vida e a morte. Dr. Jessé fez o mesmo, parou
tudo, para socorrer o patrão. Graças, talvez, ao corpo forte de homem sem
vícios e enfermidades, coronel Horácio não morreu. Entretanto, logo em seguida,
Ester caiu doente. Febre altíssima e delírios comeram-lhe toda a beleza. Como a
febre não cedia, transportaram-na para Ilhéus, mas foi tudo em vão; Ester não
agüentou, morreu.
A luta progredia, numa
corrida para ver quem chegava primeiro. De um lado estavam os Badaró derrubando
a mata e de outro os homens de Horácio, o barulho recomeçaria quando os dois
grupos se encontrassem. Nesse período, uma festa de casamento agitou Ilhéus.
Don'Ana casou com João Magalhães que se mostrara suficientemente corajoso e
envolvido com a família para continuar o trabalho dos Badaró. Raimunda e
Antônio Vítor se casaram também. Todavia, durante a lua de mel de Don'Ana, uma
tragédia se abateu sobre os Badaró. Quando passava um fim de semana com Margot
em Ilhéus, Juca foi assassinado. Eles sabiam quem tinha sido o mandante e
sabiam também que um simples processo não resolveria a questão; Horácio deveria
ser morto, mas também sabiam que isso não seria fácil.
Com a intervenção do governo
federal no estado da Bahia, o governador teve de renunciar e a oposição tomou o
poder. Nessa esteira, em Ilhéus, o interventor demitiu o prefeito e nomeou o
Dr. Jessé para o cargo; o juiz também foi transferido, viria outro em seu
lugar. Naquele momento, Sinhô Badaró tornara-se oposição e Horácio, que era
governo, já imaginava Virgílio como deputado federal. Nesse ínterim a luta pela
mata continuava, com muitos mortos e roças de cacau em chamas. O cerco da casa
Grande dos Badaró pelos homens de Horácio pôs fim na luta. Sinhô Badaró ainda
resistiu por quatro dias e noites. Quando este caiu ferido, Don'Ana mandou-o
para Ilhéus. Excetuando Don'Ana, Capitão Magalhães fez com que as outras
mulheres, Olga e Raimunda, fossem também com o Sinhô. No final todos fugiram e
o cerco culminou com o incêndio da casa grande.
Meses depois, Horácio foi
levado a julgamento e, por unanimidade de votos, foi considerado inocente.
Alguns dias mais tarde, bastante acabrunhado, procurou o compadre Maneca Dantas
para lhe dizer que mandaria matar Virgílio. Encontrara, entre os papéis de
Ester, algumas cartas de Virgílio, que comprovavam que tinham sido amantes.
Deu-se conta, atordoadamente, que toda mudança ocorrida no seu relacionamento
com a esposa era por causa do advogado; os dois o haviam traído.
No final daquele mesmo dia,
Maneca Dantas encontrou-se com Virgílio que estava de partida para Ferradas.
Sem sucesso, Maneca, que gostava muito do advogado, tentou convencê-lo a não
viajar naquela noite. Diante de tanta teimosia, contou-lhe os planos do
compadre. Virgílio agradeceu, mas confirmou que não voltaria atrás.
Explicando-se, disse que ficara com Horácio, porque ali tudo ainda era Ester.
Quando ela ainda vivia, tinha a esperança de ir embora, mas nada mais fazia
sentido. Para ele, o triste era viver sem Ester; iria morrer corajosamente,
segundo as leis do lugar. Despediu-se de Maneca e partiu. Naquela mesma noite
foi morto em uma emboscada, a caminho de Ferradas.
A nomeação de um bispo para
Ilhéus também era sinal de progresso e dentre os que saíram às ruas para saudá-lo
estavam Horácio, Maneca Dantas, Sinhô Badaró, que ainda coxeava um pouco, e
Don'Ana e esposo. Após as eleições, Dr. Jésse foi levado à Câmara Federal como
deputado do governo. Graças a ele, um decreto criou o município de Itabuna - ex
Tabocas -, desmembrando-o de Ilhéus. Horácio elegeu Maneca Dantas para prefeito
de Ilhéus e o Sr. Azevedo para prefeito de Itabuna.
AMADO,
Jorge. Capitães da Areia. São Paulo: Martins Editora, 34a Ed.
AMADO, Jorge. Gabriela Cravo
e Canela. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1958.
AMADO, Jorge. Terras do Sem
Fim. São Paulo: Martins Edit., 11a Ed.
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