João
Cabral de Melo Neto (1920 - 1999)
DADOS BIOGRÁFICOS
João Cabral de Mello Neto
nasceu em Recife, Pernambuco, em 1920. Trabalhou como funcionário do
Departamento de Estatística, em 1940. Poeta e diplomata, ingressou no Itamaraty
em 1945. Em 1947, vai à Barcelona, ocupando-se da divulgação da cultura
brasileira. Foi cônsul na Inglaterra (Londres e Liverpool), França (Marselha),
Espanha (Madrid, Sevilha e Barcelona) e Suíça (Genebra). É, também, membro da
Academia Brasileira de Letras.
CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS
João Cabral, considerado o
melhor poeta brasileiro desse período do Modernismo, inicia sua obra poética na
esteira de Drummond e de Murilo Mendes. Mostra-se interessado em afastar o
sentimentalismo de seus versos, lutando vivamente para "purificar" a
poesia recebida das primeiras gerações modernistas. Todo seu trabalho está
marcado pela preocupação formal. Em alguns poemas se encontram imagens
surrealistas que exigem certa iniciação para seu pleno entendimento.
As influências exercidas
sobre sua obra são, num primeiro momento, originárias do espírito francês,
notadamente, Mallarmé e Valéry. Segue-se a influência espanhola, reforçando sua
modernidade através de Jorge Guillén e até do italiano Montale. Finalmente, no
terceiro momento, concentra os dois períodos anteriores, unidos por temas
nacionais. Sua linguagem se entrega à sintaxe precisa, salpicada da vivência
nordestina.
Tais características
concorrem para o rigor técnico e o ritmo impecável de seus versos, cumprindo o
percurso da poesia brasileira pós-experimentalismos de 22. Sua poética é
auto-explicativa e sua principal temática é a reflexão do fazer poético em que
a linguagem aparece reduzida ao essencial. Morte e Vida Severina [ver
Antologia], "auto de Natal pernambucano", é, segundo Alfredo Bosi,
"o seu poema longo mais equilibrado entre rigor formal e temática
participante".
PRINCIPAIS OBRAS
Poesia
Pedra do Sono (1942); O
Engenheiro (1945); Psicologia da Composição, Fábula de Angion e Antiode (1947);
O Cão sem Plumas (1945); O Rio (1954); Duas Águas, Morte e Vida Severina,
Paisagens com Figuras e Uma Faca só Lâmina (1956); Quaderna (1960); Dois
Parlamentos (1961); Terceira Feira (1961); A Educação pela Pedra (1966);
Poesias Completas (1940-1965), (1968); Museu de Tudo (1976); Escola das Facas
(1981); Serial e Antes e A Educação Pela Pedra e Depois (1997).
Prosa
Considerações sobre o Poeta
Dormindo (1950); Joan Miró (1950).
MORTE E VIDA
SEVERINA
O RETIRANTE
EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI
— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
Como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu
vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se
equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas
finas,
e iguais também porque o
sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se
morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos
vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença
emigra.
*
ENCONTRA DOIS
HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA REDE, AOS GRITOS DE: "Ó IRMÃOS DAS
ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUE MATEI NÃO!"
— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como se chama
ou se chamava?
— Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
— E de onde que o estais
trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
— Onde a Caatinga é mais
seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.
— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
— E o que guardava a
emboscada,
irmão das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
— Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mais garantido é de bala,
mais longe vara.
— E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.
— E o que havia ele feito,
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?
— Ter uns hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
— Mas que roças que ele
tinha,
irmãos das almas,
que podia ele plantar
na pedra avara?
— Nos magros lábios de
areia,
irmão das almas,
dos intervalos das pedras,
plantava palha.
— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
— Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
— Mas então por que o
mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
— E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
— Mais campo tem para
soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
— E onde o levais a
enterrar,
irmãos das almas,
com a semente de chumbo
que tem guardada?
— Ao cemitério de Torres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
assar por Toritama,
é minha estrada.
— Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.
— E um de nós pode voltar,
irmãos das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.
— Vou eu, que a viagem é
longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.
— Mais sorte tem o defunto,
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.
— Toritama não cai longe,
irmão das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.
— Partamos enquanto é noite,
irmão das almas,
que é melhor lençol dos
mortos
noite fechada.
MELO Neto, João Cabral de.
Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1974. p. 73-79.
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