Clarice
Lispector (1920-1977)
DADOS
BIOGRÁFICOS
Clarice
Lispector nasceu a 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, Ucrânia.
Recém-nascida veio com os pais, em 1921, para Maceió. Em 1924, mudou-se com a
família para Recife e, em 1935, estavam no Rio de Janeiro. Em 1943, tornou-se
aluna da Faculdade de Direito. Nesse período escreveu seu primeiro romance,
Perto do Coração Selvagem. Casou-se com o embaixador Maury Gurgel Valente. A
seguir, morou em Nápoles, Berna, Torquay (Inglaterra) e Washington.
Em 1959,
separou-se do marido e fixou residência no Rio de Janeiro. A partir daí,
colaborou para a revista Senhor, fez entrevistas para a revista Manchete,
colaborou em colunas para o Jornal da Tarde, Correio da Manhã e, anos depois,
para o Jornal do Brasil, além de manter a coluna "Só para mulheres",
no Diário da Noite.
Em 1962,
recebeu o prêmio Carmem Dolores pelo romance A Maçã no Escuro. Em 1967, recebeu
o prêmio Calunga, da Companhia Nacional da Criança pela publicação de O
Mistério do Coelho Pensante. Em setembro, desse mesmo ano, provoca,
acidentalmente, um incêndio em seu apartamento, queimando gravemente sua mão
direita.
Em 1968, junto
com outros intelectuais, participou de uma manifestação contra a ditadura
militar. Em 1976, recebeu o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal
pelo conjunto de sua obra. Em 1977, publicou seu último livro, A Hora da Estrela
[ver Antologia]. Faleceu, no dia 9 de dezembro, desse mesmo ano, devido a um
câncer no útero.
CARACTERÍSTICAS
LITERÁRIAS
Com seu
primeiro romance, Perto do Coração Selvagem [ver Antologia], Clarice desperta
estranhamento e surpresa em alguns críticos, precisamente porque sua obra não
se enquadrava em qualquer programa dos modernistas, nem dos regionalistas do
período anterior.
O trabalho da
escritora é complexo e identificado como o ponto mais alto da segunda fase do
Modernismo. O tema dominante versa sobre a necessidade que o homem tem de
amparar-se na linguagem para suportar o desamparo diante do universo, recoberto
pelo silêncio intraduzível.
A tarefa da
escritora é aprisionar esse silêncio e dar-lhe sentido. Esse trabalho exige
contínuas retomadas que vão criando um discurso paradoxal, transitório, assim
definido por Benedito Nunes: "o sentido erra entre o exprimível dos
significantes e o inexprimível do significado".
Nas obras de
Clarice se destacam: o emprego intenso da metáfora, o fluxo da consciência e o
rompimento com o enredo. No conjunto, essa técnica colabora para a visitação do
mundo interior das personagens, sempre manifestado pela subjetividade em crise.
A memória serve de elo condutor entre o subjetivo e o "real",
favorecendo à auto-análise, numa espécie de "um contínuo denso de
experiência existencial".
Essa
experiência resulta em despersonalização das personagens, diante da
impossibilidade da representação do mundo e do quotidiano, enquanto buscam o
centro de si mesmas. É, pois, uma queda no vazio, provocadora de horror, como
em A Paixão Segundo G.H. [ver Antologia]. Seus temas mais comuns são: a relação
entre o bem e o mal, a culpa, o crime, o castigo e o pecado.
PRINCIPAIS
OBRAS
Romances
Perto do Coração Selvagem (1943);
O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Mação no Escuro (1961); A Paixão
Segundo GH (1964); Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969); Água Viva
(1973); A Hora da Estrela (1977).
Contos
Alguns Contos (1952); Laços de
Família (1960); A Legião Estrangeira (1964), contos e crônicas; Felicidade
Clandestina (1971); A Imitação da Rosa (1973); A Via Crucis do Corpo (1974);
Onde Estivestes de Noite? (1974); A Bela e a Fera (1979).
Crônicas
e entrevistas
De Corpo Inteiro (1975),
entrevista; Visão do Esplendor (1975) crônicas; A Descoberta do Mundo (1984)
crônicas.
Infantil
O Mistério do Coelho Pensante
(1967); A Mulher que Matou os Peixes (1969); A Vida Íntima de Laura (1973);
Quase de Verdade (1978).
A
HORA DA ESTRELA
Macabéa ao
cair ainda teve tempo de ver, antes que o carro fugisse, que já começavam a ser
cumpridas as predições de madama Carlota, pois o carro era de alto luxo. Sua
queda não era nada, pensou ela, apenas um empurrão. Batera com a cabeça na
quina da calçada e ficara caída, a cara mansamente voltada para a sarjeta. E da
cabeça um fio de sangue inesperadamente vermelho e rico. O que queria dizer que
apesar de tudo ela pertencia a uma resistente raça anã teimosa que um dia vai
talvez reivindicar o direito ao grito.
(Eu ainda poderia voltar atrás em
retorno aos minutos passados e recomeçar com alegria no ponto em que Macabéa
estava de pé na calçada – mas não depende de mim dizer que o homem alourado e
estrangeiro a olhasse. É que fui longe demais e já não posso mais retroceder.
Ainda bem que pelo menos não falei e nem falarei em morte e sim apenas um
atropelamento.)
Ficou inerme
no canto da rua, talvez descansando das emoções, e viu entre as pedras do
esgoto o ralo capim de um verde da mais tenra esperança humana. Hoje, pensou
ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.
(A verdade é sempre um contato
interior inexplicável. A verdade é irreconhecível. Portanto não existe? Não,
para os homens não existe.)
Voltando ao
capim. Para tal exígua criatura chamada Macabéa a grande natureza se dava
apenas em forma de capim de sarjeta – se lhe fosse dado o mar grosso ou picos
altos de montanhas, sua alma, ainda mais virgem que o corpo, se alucinaria e
explodir-se-lhe-ia o organismo, braços pra cá, intestino para lá, cabeça
rolando redonda e oca a seus pés – como se desmonta um manequim de cera.
Prestou de
repente um pouco de atenção para si mesma. O que estava acontecendo era um
surdo terremoto? Tinha-se aberto em fendas a terra de Alagoas. Fixava, só por
fixar, o capim. Capim na grande Cidade do Rio de Janeiro. À toa. Quem sabe se
Macabéa já teria alguma vez sentido que também ela era à-toa na cidade
inconquistável. O Destino havia escolhido para ela um beco no escuro e uma
sarjeta. Ela sofria? Acho que sim. Como uma galinha de pescoço mal cortado que
corre espavorida pingando sangue. Só que a galinha foge – como se foge da dor –
em cacarejos apavorados. E Macabéa lutava muda.
Vou fazer o
possível para que ela não morra. Mas que vontade de adormecê-la e de eu mesmo
ir para a cama dormir.
Então começou
levemente a garoar. Olímpico tinha razão: ela só sabia mesmo era chover. Os
finos fios de água gelada aos poucos empapavam-lhe a roupa e isso não era
confortável.
Pergunto: toda
história que já se escreveu no mundo é história de aflições?
Algumas
pessoas brotaram no beco não se sabe de onde e haviam se agrupado em torno de
Macabéa sem nada fazer assim como antes pessoas nada haviam feito por ela, só
que agora pelo menos a espiavam, o que lhe dava uma existência.
(Mas quem sou eu para censurar os
culpados? O pior é que preciso perdoá-los. É necessário chegar a tal nada que
indiferentemente se ame ou não se ame o criminoso que nos mata. Mas não estou
seguro de mim mesmo: preciso perguntar, embora não saiba a quem, se devo mesmo
amar aquele que me trucida e perguntar quem de vós me trucida. E minha vida,
mais forte do que eu, responde que quer porque quer vingança e responde que
devo lutar como quem se afoga, mesmo que eu morra depois. Se assim é, que assim
seja.)
Macabéa por
acaso vai morrer? Como posso saber? E nem as pessoas ali presentes sabiam.
Embora por via das dúvidas algum vizinho tivesse pousado junto do corpo uma
vela acesa. O luxo da rica flama parecia cantar glória.
(Escrevo sobre o mínimo parco
enfeitando-o com púrpura, jóias e esplendor. É assim que se escreve? Não, não é
acumulando e sim desnudando. Mas tenho medo da nudez, pois ela é a palavra
final.)
Enquanto isso,
Macabéa no chão parecia se tornar cada vez mais uma Macabéa, como se chegasse a
si mesma.
Este é um
melodrama? O que sei é que melodrama era o ápice de sua vida, todas as vidas
são uma arte e a dela tendia para o grande choro insopitável como chuva e
raios.
Apareceu
portanto um homem magro de paletó puído tocando violino na esquina. Devo
explicar que este homem eu o vi uma vez ao anoitecer quando eu era menino em
Recife e o som espichado e agudo sublinhava com uma linha dourada o mistério da
rua escura. Junto do homem esquálido havia uma latinha de zinco onde barulhavam
secas as moedas dos que o ouviam com gratidão por ele lhes planger a vida. Só
agora entendo e só agora brotou-se-me o sentido secreto: o violino é um aviso.
Sei que quando eu morrer vou ouvir o violino do homem e pedirei música, música,
música.
Macabéa, Ave
Maria, cheia de graça, terra serena da promissão, terra do perdão, tem que
chegar o tempo, ora pro nóbis, e eu me uso como forma de conhecimento. Eu te
conheço até o osso por intermédio de uma encantação que vem de mim para ti.
Espraiar-se selvagemente e no entanto atrás de tudo pulsa uma geometria
inflexível. Macabéa lembrou-se do cais do porto. O cais chegava ao coração de
sua vida.
Macabéa pedir
perdão? Porque sempre se pede. Por quê? Resposta: é assim porque assim é.
Sempre foi? Sempre será. E se não foi? Mas eu estou dizendo que é. Pois.
Via-se
perfeitamente que estava viva pelo piscar constante dos olhos grandes, pelo
peito magro que se levantava e abaixava em respiração talvez difícil. Mas quem
sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa
está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a
mim, substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se
resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca-a-boca na agonia
do prazer que é morte. Eu, que simbolicamente morro várias vezes só para
experimentar a ressurreição.
Acho com
alegria que ainda não chegou a hora de estrela de cinema de Macabéa morrer.
Pelo menos ainda não consigo adivinhar se lhe acontece o homem louro e
estrangeiro. Rezem por ela e que todos interrompam o que estão fazendo para
soprar-lhe vida, pois Macabéa está por enquanto solta no acaso como a porta
balançando ao vento no infinito. Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil,
matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida. Os que me lerem, assim, levem
um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um soco no estômago.
Por enquanto
Macabéa não passava de um vago sentimento nos paralelepípedos sujos. Eu poderia
deixá-la na rua e simplesmente não acabar a história. Mas não: irei até onde o
ar termina, irei até onde a grande ventania se solta uivando, irei até onde o
vácuo faz uma curva, irei aonde meu fôlego me levar. Meu fôlego me leva a Deus?
Estão tão puro que nada sei. Só uma coisa eu sei: não preciso ter piedade de Deus.
Ou preciso?
Tanto estava
viva que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição fetal. Grotesca como
sempre fora. Aquela relutância em ceder, mas aquela vontade do grande abraço.
Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada. Era uma maldita e não
sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar:
eu sou, eu sou, eu sou. Quem era, é que não sabia. Fora buscar no próprio
profundo e negro âmago de si mesma o sopro de vida que Deus nos dá.
Então – ali
deitada – teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da
morte. A morte que é nesta história o meu personagem predileto. Iria ela dar
adeus a si mesma? Acho que ela não vai morrer porque tem tanta vontade de
viver. E havia certa sensualidade no modo como se encolhera. Ou é porque a
pré-morte se parece com a intensa ânsia sensual? É que o rosto dela lembrava um
esgar de desejo. As coisas são sempre vésperas e se ela não morre agora está
como nós na véspera de morrer, perdoai-me lembrar-vos porque quanto a mim não
me perdôo a clarividência.
Um gosto
suave, arrepiante, gélido e agudo como no amor. Seria esta a graça a que vós
chamais de Deus? Sim? Se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher. Não,
não era morte pois não a quero para a moça: só um atropelamento que não
significava sequer desastre. Seu esforço de viver parecia uma coisa que, se
nunca experimentara, virgem que era, ao menos intuíra, pois só agora entendia
que mulher nasce mulher desde o primeiro vagido. O destino de uma mulher é ser mulher.
Intuíra o instante quase dolorido e esfuziante do desmaio do amor. Sim,
doloroso reflorescimento tão difícil que ela empregava nele o corpo e a outra
coisa que vós chamais de alma e que eu chamo – o quê?
Aí Macabéa
disse uma frase que nenhum dos transeuntes entendeu. Disse bem pronunciado e
claro:
– Quanto ao
futuro.
Terá tido ela
saudade do futuro? Ouço a música antiga de palavras e palavras, sim, é assim.
Nesta hora exata Macabéa sente um fundo enjôo de estômago e quase vomitou,
queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.
O que é que
estou vendo agora e que me assusta? Vejo que ela vomitou um pouco de sangue,
vasto espasmo, enfim o âmago tocando no âmago: vitória!
E então –
então o súbito grito estertorado de uma gaivota, de repente a águia voraz
erguendo para os altos ares a ovelha tenra, o macio gato estraçalhando um rato
sujo e qualquer, a vida come a vida.
Até tu,
Brutus?!
Sim, foi este
o modo como eu quis anunciar que – que Macabéa morreu. Vencera o Príncipe das
Trevas. Enfim a coroação.
Qual foi a
verdade de minha Maca? Basta descobrir a verdade que ela logo já não é mais:
passou o momento. Pergunto: o que é? Resposta: não é.
Mas que não se
lamentem os mortos: eles sabem o que fazem. Eu estive na terra dos mortos e
depois do terror tão negro ressurgi em perdão. Sou inocente! Não me consumam!
Não sou vendável! Ai de mim, todo na perdição e é como se a grande culpa fosse
minha. Quero que me lavem as mãos e os pés e depois – depois que os untem com
óleos santos de tanto perfume. Ah que vontade de alegria. Estou agora me
esforçando para rir em grande gargalhada. Mas não sei por que não rio. A morte
é um encontro consigo. Deitada, morta, era tão grande como um cavalo morto. O
melhor negócio é ainda o seguinte: não morrer, pois morrer é insuficiente, não
me completa, eu que tanto preciso.
Macabéa me
matou.
Ela estava
enfim livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa
logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça. Desculpai-me esta morte. É que
não pude evitá-la, a gente aceita tudo porque já beijou a parede. Mas eis que
de repente sinto o meu último esgar de revolta e uivo: o morticínio dos
pombos!!! Viver é luxo.
Pronto,
passou.
Morta, os
sinos badalavam mas sem que seus bronzes lhes dessem som. Agora entendo esta
história. Ela é a iminência que há nos sinos que quase-quase badalam.
A grandeza de
cada um.
Silêncio.
Se um dia Deus
vier à terra haverá silêncio grande.
O silêncio é
tal que nem o pensamento pensa.
O final foi
bastante grandiloquente para a vossa necessidade? Morrendo ela virou ar. Ar
enérgico? Não sei. Morreu em um instante. O instante é aquele átimo de tempo em
que o pneu do carro correndo em alta velocidade toca no chão e depois não toca
mais e depois toca de novo. Etc., etc., etc. No fundo ela não passara de uma
caixinha de música meio desafinada.
Eu vos
pergunto:
– Qual é o
peso da luz?
E agora –
agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me
lembrei que a gente morre. Mas – mas eu também?!
Não esquecer
que por enquanto é tempo de morangos.
Sim.
LISPECTOR, Clarice. A Hora da
Estrela. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1977. p. 96-104.
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